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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

CARTA QUE,TENHO CERTEZA,MÁRCIA ESCREVERIA PARA MIM


Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase : ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas ? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe porque ? Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele ! "
Vinícius de Moraes

CARTA PARA MINHA AMIGA MÁRCIA ABRUZZINI



                             

                            " TÁ  COM  SEDE ??? "

                   Os amigos criam senhas,códigos,sinais,formas diversas de se partilhar a amizade e de se comunicarem através de olhares,palavras,frases...Com a gente não poderia ser diferente,até porque,mesmo com todas as separações impostas pela vida,nós caminhamos, no antes, um chão muito extenso,uma estrada muito comprida juntas...
                    Eu tinha 12 anos quando Elissa me colocou o apelido de “ Jô “.Depois disso, muitos anos se passaram e,mesmo a vida nos direcionando para caminhos opostos,a “sensação” da amizade verdadeira e da saudade do tudo compartido,sempre permaneceu.Muitas histórias engraçadas:a Escola Normal,os estudos, para as provas,as freiras,os primeiros cigarros escondidos, fumados juntas,as boas gargalhadas,os primeiros namorados,o primeiro amor,os cinemas,os bailes,os carnavais...
                     As irmãs Elissa e Márcia Abruzzini compuseram, comigo, um cenário adolescente importante e feliz,no qual alguns sentimentos e palavras não faziam parte,principalmente a tristeza e a morte.Éramos jovens,felizes e “imorríveis” demais para isso.Os sonhos nos embalavam e isso nos bastava.A adolescência tem dessas coisas,graças a Deus,porque nos salva do imponderável.
                      Márcia, mais calada,mais calma,mais ponderada;Elissa extrovertida,agitada,impulsiva:água e vinho..Eu,uns três anos mais nova,corpo de criança, mas, cabeça ávida,observava e aprendia,roubava com, os olhos, um pouco de cada uma delas e daquela irmandade feminina por mim desconhecida, já que nunca tive uma irmã.Assim, cultivava, com carinho e responsabilidade, uma amizade que preenchia esse vazio de uma irmã de verdade dentro do meu coração.E ganhava,através dessas amizades, não só uma,mas duas irmãs de uma só vez.
                      Depois desses momentos importantes de convivência,a vida nos levou para outras estradas.Muito tempo depois, nos reencontramos e a reaproximação reacendeu a chama dessa amizade/ criança que havia permanecido lá atrás,no passado e no coração de cada uma de nós três.
                      Com Márcia,talvez por maior disponibilidade de tempo ou situação de vida atual, a reaproximação se tornou mais presente e,há quase dez anos,vimos mantendo um contato quase semanal, concretizado em boas saídas,cervejas e vinhos,músicas,papos sérios ou mais leves, histórias profissionais,pessoais,afetivas,celebrações de nossos aniversários,festas de Ano Novo,confidências,divisão de bons e maus momentos,compartilhamento do ato de viver,enfim.
                       E era para viver tudo isso que,inúmeras vezes,rindo muito,nos telefonávamos para indagar o que já sabíamos a resposta: “TÁ COM SEDE???” Era a nossa senha,nosso código quase secreto, para combinarmos alguma saída naquele dia ou uma reunião em casa mesmo, onde a presença de “uma gelada”  para matar “as sedes”,era líquida e certa.Não precisávamos de motivos para esta sede e,consequentemente, combinarmos um papo bom “molhando as palavras”.O principal era estarmos vivas,com vontade de nos vermos,com vontade de “balangar beiços”,”jogar conversas fora”,curtir nossos rodopios de mulheres adultas,livres,independentes e “com sede”,com certeza...
                            No início de março de 2011,tivemos um desses encontros aqui em casa:Lícia,Márcia e eu.Sem imaginarmos que sería o último,combinamos o carnaval,o aniversário de Márcia dia 9 e uma pequena fugida até Conservatória.Tudo isso não aconteceu.Alguns dias depois, a vida lhe pregava uma peça e,a partir daí, nunca mais usaríamos nossa secreta senha: “TÁ COM SEDE??” Nossa” querida irmã e amiga adoecia e iniciava seu sério tratamento.
                              Hoje,já estamos indo p’ra duas semanas que “perdemos” a Márcia.Foi beber sua sede em outros infinitos e nos deixou,a todos que a amamos muito,com a boca seca e os olhos molhados.Partiu como outros, também grandes amigos, partiram antes de nós e, como todos nós partiremos um dia:cada um no seu momento.Mas Márcia nos deixou um buraco negro,um vazio no coração,ao mesmo tempo preenchido pelas boas lembranças que temos dela.Afirmo,sem medo de cair no lugar comum,e não é porque ela morreu:nossa amiga Márcia era, claro que, também com seus defeitos, como todos os têm, uma pessoa especial.Com ela trocamos muito mas,sobretudo,aprendemos muito.Justa,buscando sempre o equilíbrio,inteligente,culta,sensível ao outro,despojada de preconceitos,amiga.
                                Hoje, que,cada vez mais, nossa “sede” aperta e vai apertar para sempre (eu sei),escrevo para acarinhar, de longe (ou será de perto?),a “nossa” Márcia e,ao mesmo tempo,para lhe pedir perdão pelas vezes que não tive coragem de vê-la,pelas vezes que me senti impotente e perdida,sem saber direito como dividir com ela essas outras “sedes” pelas quais passou.
                                  E,hoje minha amiga,para consolo,tento pensar que você se transformou em “mil ventos que sopram” Hoje,tento pensar que é você “uma terna noite de luar” calma,plena,vasta como seu coração. No entanto,assim mesmo,”dá-me tristeza narrar essas lembranças”.A constatação do “nunca mais” é e sempre será para todos,difícil de suportar.
                                    Sua ausência fecha um ciclo, mas deixa impressa na nossa pele,a tatuagem de seu sorriso infantil e, nos nossos ouvidos,o eco de sua voz mansa ao telefone nos fazendo a perguntinha sempre boa de ouvir e responder:”TÁ COM SEDE??”

                                                Valença,05 de dezembro de 2011-12-05
            
                       Para nossa querida irmã/amiga Márcia Abruzzini de Sá com carinho,respeito,admiração e saudades.
                                                Jocely Aparecida Macedo da Rocha – Jô -